Entrevista Oberdan Cattani3

De Porcopedia - A Enciclopedia do Palmeiras

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Entrevista com Oberdan Cattani, 3ª parte

Os goleiros Oberdan e Fábio Crippa seguram a taça da Copa Rio, na festa dos 50 anos da conquista, em 2001

Porcopédia: O sr. ainda acompanha os jogos do Palmeiras ?

Oberdan Cattani: A gente vê o futebol de hoje e não dá mais ânimo. Eu vi o Palmeiras jogar contra o Boca (amistoso da despedida do estádio Palestra Itália). Se eles pegassem o Boca da minha época que tinha Vacca, Amarante, Dezorzi, Souza, Perucca e Persi, Borjía e Salerno. Nós ganhamos deles aqui de 2 a 0. Fomos jogar lá em Montevidéu e estávamos ganhando de 3 a 0. Quase no fim do jogo eles fizeram 2 gols, foi 3 a 2. Ganhamos do River aqui e lá, com Muñoz, Moreno, Pederneira, Labruna, Loustau. Pelo amor de Deus. Ainda tinha Méndez, Antunes.


P: Ganharam no Peñarol que também tinha um timaço.

OC: Peñarol tinha Obdúlio Varella, Gambetta, Muñoz, José Garcia, pelo amor de Deus. Nós ganhamos do Peñarol lá no Uruguai de 2 a 1. Tinha cada time naquela época.


P: Falando em estrangeiros, e os estrangeiros com quem o sr. jogou ? O sr. soube o que aconteceu com eles depois que saíram do Palmeiras ? O Echevarrieta, por exemplo.

OC: O (argentino) Echevarrieta foi uma criatura maravilhosa, morreu lá em São José do Rio Preto. O Dacunto voltou pra Argentina, Luiz Villa morreu na Argentina também, Gonzalez morreu lá no Rio. Ele morou nessa rua, lá embaixo em uma vila. Que jogador ! Casou com uma carioca e foi lá para o Rio, ela morava aqui, uma travessa da Augusto Miranda (rua na Pompéia). O filho dele nasceu em Sorocaba. Ele foi treinar o São Bento (Gonzalez virou treinador e chegou a treinar o Palmeiras) e o filho acabou nascendo lá. Faleceu lá no Rio, o garoto.


P: Então os jogadores estrangeiros acabavam ficando, eram sempre bem recebidos, não é ?

OC: Todos eles. No Palmeiras todos eles sempre foram bem aceitos. O Bóvio também era um tipo brincalhão.


P: Quais foram os melhores zagueiros com os quais o sr. jogou ?

OC: Olha, joguei com grandes zagueiros. Junqueira foi extraordinário, a bola passava aqui e ele dava um carrinho e nem tocava no adversário. Domingos da Guia foi maravilhoso (jogaram juntos na Seleção Brasileira), Norival (ex-Flamengo e Fluminense), Piolim (SPFC), Caieira (quando chegou ao Palmeiras, já era ídolo do Palestra Itália de Minas, atual Cruzeiro), o Turcão teve uma época muito boa quando ele fez dupla com Caieira. Nós ficamos invictos nove jogos e quem quebrou o jejum e fez um gol contra ? O Turcão !


P: Ele anda com aquela nota da geladeira até hoje ?

OC: (risos). Eu falava para ele “eu tinha um bicho bom e você me pegou aquele bicho”. Até hoje a gente brinca com isso. Ele fez o gol e na quarta-feira chega uma geladeira na casa dele. Eu dizia “você comprou a geladeira com o bicho que eles te deram?”. Mas ele leva tudo na brincadeira, é um grande companheiro. (a loja dos irmãos Sgarzi resolveu promover a geladeira, um novo produto que chegava ao país. E anunciou no rádio que daria uma geladeira a quem vencesse a muralha verde, quem quebrasse a invencibilidade de Oberdan. Turcão, alguns dias antes, havia comprado uma geladeira para a mãe. Quando foram lhe entregar o produto, na semana após o jogo contra o Corinthinas onde ele havia feito o gol contra, algumas pessoas que moravam na mesma rua que sua mãe ficaram desconfiadas. O acusaram de fazer o gol justamente para ganhar a geladeira. E a situação causou grande preocupação em Turcão, que precisou ir à rádio, no programa do Geraldo José de Almeida com a nota fiscal para explicar a história).


P: Para encerrar. O sr. disse no final da carreira “Abandono o futebol certo que a torcida não me esquecerá”. Cinquenta e cinco anos depois de encerrar a carreira o sr. ainda é lembrado com muito carinho pela torcida. Sinal de dever cumprido ?

OC: Trabalhei com amor que tive pelo clube.


Jogos Marcantes

Paulista de 42

Arrancada Heróica

P: E o SPFC ? O sr. tem alguma mágoa pelos acontecimentos de 42 ?

OC: Não, não. Tenho grandes amigos lá. Nós jogadores não tínhamos nada a ver com o que se passava. Quem tinha que resolver as coisas eram os diretores, não é verdade ?


P: Mas é do sr a frase “Corinthians é rival, São Paulo inimigo” ?

OC: A torcida que falava isso, Corinthians adversário, São Paulo inimigo. Porque eles interferiram na mudança de nome de Palestra Itália para Palmeiras, principalmente o Porfírio da Paz (diretor do SPFC). Ele ia na torcida do São Paulo, tirava a farda, punha a camisa do São Paulo e ficava gritando contra. Então a torcida do Palmeiras, na minha época, não podia ver o São Paulo de jeito nenhum. Porque muitos diretores interferiram na mudança de nome, fizeram pressão. Por isso muitos torcedores ficaram magoados e até hoje não topam o São Paulo. Para mim não tem problema.


P: E o jogo da final do Paulista de 42 ? Os jogadores do Palmeiras entraram com mais vontade por tudo o que estava acontecendo ?

OC: Nós entramos com a bandeira brasileira (foto) e fomos vaiados. O próprio Porfírio da Paz vaiou. Com aquilo a turma ficou revoltada. Parece que deu mais ânimo para gente ganhar o jogo. Estávamos ganhando de 3 a 1 quando houve um pênalti e o Luizinho (Mesquita) não deixou bater. Saíram de campo, o Luizinho tirou todo mundo. O Luizinho, que tinha jogado no Palestra, campeão em 36 e 40.


Copa Rio 1951

Copa Rio na Sala de Troféus do Palmeiras. Foto: Fabio Tatu

P: Sobre a Copa Rio, o sr. tem alguma mágoa por não ter jogado a final ? (Oberdan foi titular nos três jogos da 1ª fase, até a derrota contra a Juventus. Depois foi sacado dando lugar a Fábio Crippa)

OC: Não. Aí também foi questão política, o presidente e o treinador. Quando saiu o treinador (Jim Lopes), eu falei “põe o Cambon (Ventura Cambon), o Cambon é nosso, daqui. Ele jogou em 25 no Palestra”. E no fim ele foi contra mim também. Ele e o Mario Frugiuele (presidente do Palmeiras). Aí entrou o Fábio Crippa e foi bem.


P: Dizem que ele fechou o gol.

OC: Contra o Vasco. Contra a Juventus ele não foi bem. Nós ganhamos o 1º jogo de 1 a 0 e empatamos o 2º jogo em 2 a 2, mas os 2 gols que ele tomou não era para tomar. Nós estávamos perdendo de 2 a 1 e no finzinho o Liminha fez o gol do empate. Nós jogávamos pelo empate. A Juventus tinha um belo time. Aqui nós perdemos porque jogamos contra o Nice com um time, contra o Estrela Vermelha com outro time. Ganhamos dois jogos duros. Mais fácil foi o time da França, o time do Yeso (Yeso Amalfi, brasileiro que fez muito sucesso no futebol francês), que nós ganhamos de 3 a 0. E ganhamos de 2 a 1 contra o Estrela Vermelha. Aí chegou o jogo contra a Juventus e colocaram cinco reservas, e o time não andou. Defendi um pênalti do Boniperti e até o pênalti me criticaram. Ele chutou eu rebati e nossos jogadores tudo de braço cruzado lá. E na rebatida fizeram o gol.


Causos

Pequena área, uma caixinha de surpresas

Oberdan: eu punha esparadrapo no punho e uma faixa por dentro. Cotoveleira nunca usei, nem luvas. E o gol não era como hoje, que tem grama. Chovia e nossa área ficava uma lama. Eu cortei as mãos com caco de vidro, precisei até levar ponto. Uma vez saí com um prego grudado na mão. Você entra no campo hoje e onde fica o goleiro é bonito, todo gramado.


Zezé Procópio

Com Zezé não tinha conversa

P: É verdade que o sr. tentou pegar o Luizinho Mesquita ?

OC: Ele era meio chatinho mas fomos grandes amigos. Às vezes acontecia só na hora da partida. Mas o Luizinho foi o maior ponta-direita que eu já vi jogar.


P: Dizem que o sr. não levava desaforo pra casa. Não teve uma vez que o sr. se estranhou com o Leônidas também ?

OC: Peguei o Leônidas (da Silva) e o Remo (ambos do SPFC), dei uma gravata nos dois. Porque eles entravam com maldade na gente, né ? O Leônidas veio, dei uma gravata neles. Ele caiu de um lado e o Remo do outro. Mas isso tudo fazia parte da partida, compreende ? Dentro do campo, eles de um lado e a gente de outro. Quando a gente ia jogar com o São Paulo, o Luizinho era de encher todo mundo, ele perturbava todo mundo, não era só eu não. O único lugar que ele não ia era do lado esquerdo porque o Zezé (Procópio) dava. Com Zezé Procópio não tinha conversa não, ele descia o cacete mesmo.


Família Palestrina

P: Além do Athos e do Vicente, vocês eram em quantos irmãos ?

OC: Éramos em 10. Lourenço, Spartaco, Athos, Tereza, José, Roberto, Oberdan, João, Adelino e Vicente.


P: A família era toda palestrina ?

OC: Tudo palestrino. Eles vinham de Sorocaba para assistir jogo aqui. Três ou quatro irmãos vinham só para assistir o jogo. Pegavam o trem às 7 horas, desciam às 10, almoçavam por aí. Assistiam o jogo, 7 horas pegavam o trem de volta e chegavam às 10 em Sorocaba. Às vezes eles vinham de carro também.


P: E todos irmãos o viram jogar no time do coração. Imagina o orgulho pra eles.

OC: Nossa senhora. Meu irmão vinha assistir o jogo e brigava com os caras que me xingavam.


P: Quando voltava para Sorocaba, devia ser o orgulho da cidade também.

OC: Na minha cidade tinha muito corinthiano. Da ponte para cá, tudo espanholada. Mas me dava bem com todo mundo e todo mundo gostava de mim.


Botando banca ? Aqui não!

Oberdan: Nós ganhávamos miséria naquela época. Principalmente nós jogadores que éramos do Palmeiras. Se o Jair ganhava 30, nós ganhávamos 800. O que vinha de fora ganhava sempre mais. O que o Rodrigues veio ganhando aí, o Jair, o Humberto.


P: O Rodrigues veio de que time ?

OC: Veio do Fluminense.


P: Mas ele era paulista.

OC: Ele foi do Ypiranga, e depois foi para o Fluminense. Uma vez até encrenquei com ele. Tinha jogador que vinha ganhando mais do que a gente, botando banca. Teve um centroavante chamado Octávio, que veio lá de Minas, eu também andei dando umas duras nele. Ele não falava muito porque eu partia para ignorância com ele.


P: O sr. punha ordem na casa.

OC: Eu, o Lima, Canhotinho. Nós sempre estávamos juntos. Caieira tbm, era um companheiro maravilhoso. O Og (Moreira) quando chegou aqui, logo de cara eu encrenquei com ele.


P: O Og veio do Rio ?

OC: É, veio lá do Fluminense. Chegou aqui, começou a botar banca. Parti para cima dele também. Depois virou um grande amigo meu. Mas que é isso, vem aqui ganhando mais e fazendo pouco caso. Ah não, eu não aceitava.


P: Mas faziam pouco caso da cidade, não do Palmeiras ?

OC: Dos paulistas.


P: Dizem que antigamente, a Seleção sempre privilegiou os jogadores do Rio.

OC: A gente ia lá e eles faziam pouco caso da gente. Principalmente o Flávio Costa.


Briga com o torcedor

P: Naquela época tinha cobrança da torcida ?

OC: Era diferente, não tinha essa xingação. Mas isso tudo faz parte do futebol, então a gente leva tudo isso bem. Teve um torcedor que em uma ocasião, eu estava jogando no Parque Antártica, na época eu estava no Juventus, e o torcedor atrás do gol me xingando, me xingando. Eu no gol onde tem a piscina, tinha arquibancada lá. Aí foi uma bola lá perto e eu perguntei “vem cá, por que você está me xingando?”. “É porque você é isso e aquilo”, disse o sujeito. Dei um murro na cara dele. Ele foi cair sentado lá na arquibancada, com a boca saindo sangue.


P: Mas ele estava xingando a troco do que ?

OC: Sei lá. Eu estava no Juventus e ele no Palmeiras. Mas dei-lhe um murro, o juíz viu e não me expulsou. Não me lembro o nome do juíz, mas ele veio para mim e disse “eu vi você dar o soco no cara lá. Podia ter te expulsado”. Eu disse “mas eu bati nele com maior alegria, me xingou, me xingou”. “Fez muito bem”, disse o juíz. Não me citou nem na súmula.


P: Mas esse acho que não xingou mais.

OC: E os caras na torcida ainda queriam bater nele.


Copa de 50, Chevrolet 46

Volta à SP no Chevrolet 46

P: Sobre a Copa de 50, quem foi convocado além do Barbosa ?

OC: O Barbosa, eu e o Castilho. Eu fui campeão em 50 pelo Palmeiras, estava bem. Não me levaram, não levavam o terceiro goleiro, só inscreviam. Eu peguei o carro com uns amigos aqui e fui para lá. Eu, o Lula que morava em Bangu, e o Sarno. E mais dois aqui de São Paulo, o Hélio e um outro. Nós fomos e o Brasil perde. E na volta, subi a serra e quando estava descendo, meu carro desembestou. Brequei, engatei a marcha e me quebra a ponta de eixo de trás.


P: Que carro o sr. tinha ?

OC: Um Chevrolet 46. Mas estava novo, novo. Sorte que quebrou perto de um posto de gasolina. O Hélio, que infelizmente já faleceu também, morava aqui na avenida Pompéia, e o outro ficaram no carro. Eu tirei a roda fora, tirei as duas pontas de eixo e peguei um táxi. Amanheceu, abriu a loja e comprei as pontas de eixo. No posto tinha um sr. lá que era mecânico, que trocou pra mim. Pus um pouco de óleo no diferencial e fomos embora. Depois passei em um lugar e me quebrou uma mola. Cheguei em casa na terça-feira ! Cheguei aqui e ainda quebrei um pau com a minha senhora. O que ela me xingava. Aconteceu tudo isso e o Brasil ainda me perde.

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