Entrevista Oberdan Cattani1

De Porcopedia - A Enciclopedia do Palmeiras

Entrevista com Oberdan Cattani, 1ª parte

Oberdan Cattani. Foto: Fabio Tatu

Porcopédia: Quando o sr. começou a jogar futebol, lá em Sorocaba, por que escolheu ser goleiro ? Foi influência dos seus irmãos ?

Oberdan Cattani: Não, não. Meu irmão jogava no gol, lá no Britânia (o irmão Athos foi goleiro do Britânia de Sorocaba e o caçula Vicente, falecido há 8 meses, foi goleiro do Corintinha de Santo André). Desde moleque, dos tempos do Grupo Escolar “Antônio Padilha”, que tinha um belo campinho, cismei ir pro gol. Desde os oito, dez anos que jogava com a criançada, eu jogava no gol.


P: Mas nunca o sr. se aventurou na linha ?

OC: Na linha eu ia quando o pessoal não fazia gol. Eu mandava outro pro gol e ia para linha ajudar.


P: E jogava em qual posição ?

OC: Eu era meia-esquerda porque chutava só de esquerda. Jogava também de centroavante. No time dos Veteranos também eu brincava na linha, mas sempre gostei mais do gol.


P: O sr. acabou de completar 91 anos no último dia 12 de junho. O sr. sempre se cuidou, mesmo depois que parou de jogar ?

OC: Trabalhei em fábrica de bebida (o pai de Oberdan, Ernesto, tinha uma fábrica quando ele era pequeno), mas eu nunca bebi. Saía com os companheiros, eles só cerveja e whisky e eu na minha soda. Até hoje, não fumo, não bebo, nunca perdi uma noite em boate. Cabaret, nunca fui, nada. Acabava o jogo, ia pra minha casa ou ia para o cinema ali na Rua Barra Funda, no D.Pedro, que eu morava ali pertinho, e voltava para casa. Mas nunca perdi uma noite com esse negócio de farra. Se eu tinha que fazer minhas farras, eu ia sozinho, para não dar motivo a ninguém. Mas perder noite fora, nunca.


P: E tinha muito jogador que gostava da noite ?

OC: Ih, se tinha. Quando o time ia para o estrangeiro, eles saíam e voltavam só de madrugada. Eu não. Acabava o jogo, ia para o hotel. É por isso que com 91 anos não sinto nada, graças ao bom Deus. Estou com esse problema no joelho (Oberdan usa joelheira nos dois joelhos), mas é por causa da friagem. A gente jogava no gol e ficava parado, e aquele tempo fazia um frio que nossa senhora ! Eu fui morar em Santo André e garoava o dia todo. Eu saía de casa pra treinar com capote, luva, gorro e até ceroula, que se usava antigamente. Fora isso não sinto nada, fígado, intestino. Também não abuso de nada, nunca abusei.


P: O sr. nunca fumou também ?

OC: Quando a gente ia dormir no hotel e vinha jogador que fumava, eu dizia: “aqui não, vai dormir em outro quarto”. Eu pegava o pessoal que não fumava comigo.


P: E tinha muito jogador que fumava ?

OC: Ô se tinha. O Fiúme (Waldemar Fiúme) era um deles, um cigarro atrás do outro. Todos eles. O Lima não fumava, mas o resto, nossa senhora ! Acabava de almoçar, cigarro na boca, tomava café com cigarro na boca. Sentava e daqui a pouco “dá um cigarro aí”. É um vício, né ? Mas o Lima não fumava e dormia no meu quarto.


P: Quando o sr. veio do Fortaleza de Sorocaba para o Palestra...

O: Eu vim do São Bento já.


P: O sr. jogou pouco tempo no São Bento, não é ?

OC: Isso, joguei quatro ou cinco partidas só. Mas o São Bento tinha um belo time antigamente, hoje não tem mais ninguém em Sorocaba. Veio jogador do Guanabara 200, do Votorantim. Veio um monte de jogador naquela época para cá. Hoje não se ouve falar de mais ninguém lá. Hoje você vai em qualquer cidade no interior tem dois times de futebol, mas Sorocaba. Eu vou em Sorocaba hoje e me perco. Puxa vida, o que aumentou ! Aquela parte do Lageado (bairro de Sorocaba) que eu ia no riacho tomar banho, ia pescar, virou uma cidade aquilo lá. Fizeram um hospital maravilhoso onde eu vou (Hospital Oftalmológico de Sorocaba onde Oberdan fez transplante das córneas). Mudou completamente. Sozinho lá eu me perco.


P: Ainda existe a casa onde o sr. morou ?

OC: Nada. Na rua 7 de setembro, onde eu morava, virou tudo agência de automóveis. Todas aquelas casas foram vendidas e fizeram só agência de automóveis. Minha casa tinha, mais ou menos, uns 15 metros de frente por 100 metros de fundo. Depois tinha a fábrica (do pai de Oberdan) mais uns cento e poucos metros. Era enorme.


P: Antes de se tornar jogador, o sr. acompanhava o Palestra Itália ?

OC: Eu vinha. Quando eu era caminhoneiro, eu vinha. Aos domingos encostava meu caminhão no Parque Antártica. Vinha trazer fruta no Mercado Municipal. Sorocaba era a cidade que mais exportava laranja para o estrangeiro. Eu vinha trazer laranja e mexerica no Mercado Municipal. Quando acabava a safra de laranja, eu vinha trazer a safra de cebola. Sorocaba tinha muito espanhol, da ponte pra cá era só espanhol. Você não podia passar na calçada que era só cebola estendida para secar. Você tinha que andar pelo lado. E eu vinha trazer cebola na rua Santa Rosa. E aos domingos, quando não tinha jogo lá e eu vinha trazer as frutas, aproveitava para ver jogo do Palestra.


Oberdan disputa a bola no 3º andar em jogo contra o Santos na Vila Belmiro (1944)

P: Então o sr. era torcedor mesmo ?

OC: Isso. Até meu patrão falava: “pô, por que você não vem aí ? Você é melhor que o Gijo, que o Clodô” (goleiros do Palestra Itália na época). O Miguel Paschoarelli, que foi um grande beque, tricampeão pelo Palestra Itália, e meu irmão Athos tinha muita amizade com ele, ali na Vitorino Carmilo (rua da Barra Funda). Eu tinha um primo que tinha um bar ali. E meu irmão vinha de Santo André para bater papo com ele e pegou amizade pelo Miguel Paschoarelli. E ele falou: “tenho um irmão que joga bem no gol e tá perdendo tempo lá”. E o Miguel mandou que eu viesse uma 3ª-feira fazer um teste. Eu vim. Cheguei aí tinha 12, 13 goleiros fazendo testes. Aí o Caetano de Domenico (técnico do Palestra) ficava na meia lua e jogava a bola com a mão. Ele via que o goleiro não pegava e dizia: “sai, entra outro”. Eu fui o último. E eu treinava isso lá em Sorocaba, de jogar a bola com a mão com o treinador de lá. Primeira bola que ele jogou eu pulei, bati com uma mão só na bola, a bola subiu, caiu na minha mão. Eu segurei com uma mão só, bati, peguei e dei pra ele. Ele falou: “ragazzi!”. Só vi ele falar isso. Aí ele jogou a segunda no lado esquerdo, eu fui lá em cima e peguei. Eu tinha muita impulsão porque eu praticava atletismo também, salto em altura, salto com vara, fui corredor de rua na categoria juvenil. Fui bicampeão da categoria como corredor de rua. Aí fiquei treinando. Jogava Luizinho (Luizinho Mesquita), Canhoto, Echevarrieta, Lima e Pipi, a linha do Palestra. Tomei 2 gols no treino e acabaram gostando de mim. Aí o Caetano falou: “quinta-feira você não pode treinar porque nós vamos jogar contra a Portuguesa. O sr. pode vir na outra semana”. Eu disse “tudo bem”. Eu trabalhava em Sorocaba, entregava bebidas em bares. Aí o Palestra jogou com a Portuguesa e apanhou de 2x0. E disseram “manda o garoto vir”. Eu fui treinar na terça-feira, fiz outro treino muito bom e ninguém falou nada. Eu voltei pra Santo André na casa do meu irmão, peguei minha sacola e falei “vou embora pra Sorocaba, ninguém me falou nada”. Meu irmão: “não, não”. Voltei na quinta. Treinei, fiz outro treino bom e me chamaram pra fazer o contrato. Ofereceram 150 mil réis por mês. Falei pra eles “eu ganho muito mais do que isso trabalhando no caminhão”. O ordenado dos jogadores era 800 mil. Aí ofereceram 200 mil. “Eu vou ficar por 200 mil”. Aí assinei contrato até o fim do ano. Da metade de junho até o fim do ano eu assinei por 200 mil, pro 2º quadro. Estreei contra o SPR (São Paulo Railway, atual Nacional da capital), que tinha um timaço, e ganhamos de 3 a 0. No outro jogo também ganhamos. Aí veio o Corinthians, onde jogava o Paulo, o Caio. Um timaço o time deles também. E nós ganhamos deles por 1 a 0, eu fiz um partidaço e o Del Debbio (Armando Del Debbio, na época o técnico do Corinthians) me chamou pra ir para o Corinthians. E falei “não, não, eu acabei de assinar contrato com o Palestra”. Depois veio o jogo contra o São Paulo e nós perdemos. O São Paulo também tinha um senhor time no 2º quadro. Aí depois eu fiz a minha estreia contra o Corinthians.


P: No 1º quadro ?

OC: No 1º quadro. Nunca tinha jogado a noite e parece que empatamos ou ganhamos de 2 a 1, não me lembro. Aí entrei no time e não saí mais.


P: E quem eram os goleiros na época ?

OC: Gijo e o Clodô. Depois o Gijo foi embora pro Fluminense e ficou eu e o Clodô. E tinha também o Rodriguinho, irmão do Rodrigues que jogou na Portuguesa de Desportos. E o Rodrigues depois de um tempo veio jogar no Palmeiras também.


P: O sr. falou de jogo noturno. É verdade que antigamente se pintava a bola para jogar a noite ?

OC: É. Ficava pesada a bola, viu ?


P: Nessa última Copa do Mundo, alguns goleiros reclamaram muito da bola. Como era a bola no seu tempo ?

OC: A bola quando molhava virava um tijolo e ficava lisa. A gente não usava luva então tinha que passar bastante breu na mão.


P: Ontem foi o lançamento da nova camisa do Palmeiras. As camisas dos goleiros são a azul e a branca. Eu sempre vi as fotos dos goleiros do Palestra de branco (Primo, Aymoré Moreira, Nascimento, Jurandyr, Gijo) e o sr. sempre de azul. O sr. chegou a jogar de branco ?

OC: Joguei de branco na época do Palestra, 40, 41 e até metade de 42. Aí quando veio aquela encrenca* com o São Paulo, que o São Paulo queria tomar o Parque Antártica e por causa da guerra nós mudamos o nome de Palestra Itália para Sociedade Esportiva Palmeiras. Então eu adaptei pra camisa azul e o calção azul. Quem lançou a camisa azul fui eu.

* Sobre a encrenca com o São Paulo a que Oberdan se refere: quando eclodiu a II Guerra Mundial, aliada ao Japão e a Alemanha, a Itália se tornou inimiga do Brasil que apoiava as Forças Aliadas. No caso do Palestra Itália e de outras agremiações esportivas a solução seria a mudança de nome. Aos que não adotassem, a ameaça do governo Getúlio Vargas seria de tomar-lhes o patrimônio. Inicialmente a direção palestrina tentou "substituir" a palavra Itália por São Paulo, passando-se a chamar Palestra de São Paulo. Não deu certo e tivemos que mudar de nome novamente. O São Paulo Futebol Clube, então uma equipe simples, sem estádio, sonhava com o fim do Palestra para adquirir todo seu patrimônio. A partir de 14 de setembro de 1942, o antigo Palestra Itália passaria a se chamar Sociedade Esportiva Palmeiras, inspirado na extinta A. A. das Palmeiras; e retirou-se o vermelho do uniforme. Por coincidência a primeira partida da Sociedade Esportiva Palmeiras seria a disputa do título Paulista com o São Paulo. Inconformado com a impossibilidade de ficar com tudo o que pertencia ao Palmeiras, a diretoria são-paulina criou um clima de hostilidade antes da partida. Diziam que os paulistas deveriam encarar os jogadores do Palmeiras como inimigo da Pátria. Texto retirado do site Palestrinos - http://www.palestrinos.com.br/.


P: E a tradição foi mantida com a cor que o sr. escolheu porque até hoje nossos goleiros jogam de azul.

OC: O Leão foi quem mudou, fez a camisa listrada, queria aparecer mais do que os outros. (na 2ª academia, Leão jogava de azul. Na volta, em 84, usou a listrada)


P: Mas o Marcos joga de azul.

OC: Mas não é como a minha, que era inteirinha azul, só o escudo branco no meio.


P: E aquela história que o sr. pegava pênalti com uma mão só.

OC: A gente ia mas é que às vezes não dava tempo de ir com as duas mãos. Mas no Juventus, a gente teve 7 pênaltis e eu peguei 5. Até do Cláudio (Cláudio Cristovão Pinho), que nunca tinha perdido.


Acervo pessoal de Oberdan. Foto: Fabio Tatu

P: E qual era sua técnica pra pegar pênalti ? Esperava o batedor chutar ou tentava adivinhar um canto ?

OC: Sempre esperei bater.


P: Hoje existe o preparador de goleiros. Como era a preparação dos goleiros na sua época ?

OC: Pra mim o que melhor trabalhou com os goleiros foi o Caetano de Domenico. Ele ficava na meia-lua e jogava a bola com a mão, tudo no ângulo. Jogava com a mão mas parecia um chute. E você tinha que ter impulsão pra sair. Depois ele ficava na lateral, e jogava a bola no meio da área, pra treinar a saída de gol.


P: Teve algum grande goleiro que o sr. admirava ?

OC: O Jurandyr (ex-goleiro do Palestra).


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